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Gabriel Barreto Lacerda e Maria Clara Resende Lima

Conto relacionado ao livro A Metamorfose de Franz Kafka


PREFÁCIO

A morte de Gregor Samsa como inseto não significava uma simples morte. Ela era uma mudança, um marco na vida daquele ser. Sua morte como inseto significava um novo começo, uma nova era. Definir esta era como boa ou ruim dependia apenas dele.

UMA NOVA METAMORFOSE

Depois de um longo período de breu, Gregor Samsa acordou em um lugar desconhecido até então. Parecia ser um enorme contingente de lixo. Ele já estava acostumado com sua condição de inseto, acostumado a se sentir de uma maneira estranha, portanto nem se importou em olhar em que corpo estava.

Perguntava-se como teria ido parar naquele lugar. Imaginava situações, mas não conseguia se lembrar de nada além do incidente com os inquilinos de sua família. Se sentia culpado pelo que havia acontecido, não se conformava de ter se tornado um peso para sua família. Mas acabou ficando com rancor por sua família destratá-lo de uma maneira tão fria após sua metamorfose. Afinal, apesar de ter se transformado numa criatura tão asquerosa, ele ainda assim era da família e não havia se transformado por escolha própria.

Gregor estava perdido em seus pensamentos quando se assustou com latidos de cachorros. Aterrorizado começou a correr, correr muito, mas de repente percebeu que os cachorros já estavam longe. Foi neste momento que ele percebeu na nova criatura em que se transformara. Dessa vez ele não se parecia com um inseto.

Era um ser magnífico e imponente, de uma beleza agressiva e sutil ao mesmo tempo. Deixaria qualquer ser humano espantado com tamanha beleza. Alto, esbelto, tão charmoso e poderoso quanto um leão que esbanja poder na savana. Mal sabia Gregor que o destino havia lhe entregado a maior arma para reconstruir seu futuro. Dali em diante, ele iria usar sua aparência e todo seu poder de encantamento para triunfar. Restava saber se ele teria sabedoria suficiente para lidar com todo este poder.



Gregor estava eufórico com sua nova forma, afinal ele não era mais um inseto asqueroso, porém ele ainda não tinha noção alguma sobre o real poder que aquela forma lhe proporcionava. Ele precisava sair daquele lixão que mais combinava com seu antigo corpo, do que com o atual. Avistou um homem bem ao fundo e resolveu dirigir-se a ele para pedir auxílio sobre como sair dali. O homem fez tudo o que ele pediu e a todo tempo demonstrava admiração e subordinação.

Ao deixar o local foi andando pelas ruas rumo à lugar nenhum, não tinha ninguém e pela primeira vez depois do ocorrido sentiu uma vontade imensa de chorar. Como não tinha lugar para passar a noite recolheu-se em posição fetal debaixo da marquize de uma perfumaria, gastava do cheiro dali, e prometeu para si mesmo que ninguém nunca mais o trataria daquela forma como o trataram.



Gregor decidiu assumir o controle da situação e utilizando toda sua beleza e poder de convencimento começou pela perfumaria e retirou daquele lugar tudo àquilo que tinha interesse. Percebeu que nunca teria problemas para adquirir nenhum bem material e que dali em diante teria tudo que já quis um dia.

Andava com as melhores roupas, os melhores perfume, frequentava os melhores restaurantes. Ao longo do tempo o nome “Gregor Samsa” passou a ser um dos mais conhecidos pelo mundo inteiro. Vivia de e para futilidades, foi protagonista de reportagens em muitos jornais, onde contava a história de sua metamorfose. Ele alcançou seu objetivo, era reconhecido, bem tratado, mas sua vida continuava vazia.


A família Samsa passou a conhecer a nova personalidade do antigo membro através de jornais e outros meios, mas nunca mais chegou perto de Gregor. Estavam arrependidos de terem o rejeitado, queriam aproximar-se dele novamente, mas ele nunca mais os procurou. A mãe mais que ninguém sofria ao ver o filho longe e desta vez no corpo de um ser maravilhoso. Sentia-se orgulhosa por ser mãe de Gregor, mas sabia que quando ele mais precisou ela não estava presente. O pai, rancoroso como sempre, chamava o filho de mal agradecido. Acreditava que pelo filho ter ficado na casa enquanto era um inseto asqueroso, agora devia favores àquela família. A irmã ficava imaginando todo o luxo que o irmão vivia enquanto ela estava ali, naquele velho apartamento.

A família que o rejeitara tanto por sua antiga condição física, era a mesma que agora queria estar perto e se aproveitar de todas as regalias que a vida ao dele proporcionaria.

Gregor sequer se lembrara de sua família após triunfar na vida, no início ele queria se vingar dela, mas depois ele só queria pensar cada vez maior e maior. Queria explorar cada vez mais sua imagem.

Em um certo dia Gregor estava em seu quarto descansando quando ouviu alguém bater na porta. Mandou um de seus subordinados atender e de repente sua irmã estava em pé bem a sua frente. Ela estava com uma expressão indecifrável, uma mistura de vergonha, raiva, felicidade e esperança. Não era possível definir bem.

_ Gregor, quantas saudades eu senti de você meu irmão!

Gregor se limitou a dar um sorriso sarcástico, sabia que a irmã não havia dito tudo o que queria dizer.

_ Você não sabe como os últimos tempos tem sido difíceis! Papai está velho demais para trabalhar e eu estou tendo que levar todos em minhas costas. Estamos sentindo sua falta, queremos sua presença naquela família novamente.

Gregor não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Ao ouvir estas palavras todo aquele rancor que sentia quando acordou no lixão retornara e ele queria gritar, mas sabia que se mantivesse a calma conseguiria dizer tudo que queria.

_ Mas que ironia, não minha irmã? Vocês não sentiam minha falta quando eu estava sofrendo, quando eu era aquele inseto asqueroso e não tinha nada para lhes oferecer. Pouco se importavam com meu bem estar físico e psicológico. Mas agora a situação é diferente não é mesmo? Eu tenho o mundo aos meus pés e posso proporciona-lhes o que vocês quiserem. Agora é bom para vocês que eu seja parte da família.

_ Gregor, não nos entenda mal, meu irmão. Olhe um pouco nosso lado. Você não era normal.

_ E nem agora sou, mas o estranho de agora é bom. E eu estou aproveitando o máximo que posso dele. Mas você e seus pais estão fora da meu círculo de pessoas. Eu não tenho família, assim como não tinha quando era inseto.

A partir desse dia Gregor nunca mais sequer pensou em sua família, nunca lia as cartas, nem perguntava por eles. Continuou vivendo sua vida rodeado de subordinados, pessoas que estavam ao seu lado, mas que não se importavam realmente com ele. A família de Gregor se acostumou a ouvir notícias sobre ele e ignorar, para eles era como se ele tivesse morrido na noite antes de sua primeira metamorfose.

Todos acostumaram com a ausência de Gregor, assim como ele se acostumou com a ausência da família. Mas a família tinha onde se apoiar, eles ainda assim estavam unidos. Mas e Gregor? Gregor estava sozinho mais uma vez. No momento em que ele não foi capaz de perdoar sua família foi como se ele começasse a se matar lentamente. Vivia em função de si mesmo e acabou se vendo em um abismo, onde ele provavelmente nunca conseguiria sair, já que seu orgulho e sua mágoa eram grandes demais.

Gregor foi pouco a pouco criando a própria cova, entrou em uma depressão profunda que nem todo o poder que ele tinha era capaz de compensar. Ele não tinha mais ânimo para nada, e seu império foi decaindo até um dia em que não havia mais nada. Sua aparência perfeita já não era mais a mesma e seu poder sobre os outros já não funcionava.

Não havia mais propósito para viver, não havia com quem compartilhar, não havia ninguém interessado. A oportunidade de reconstruir sua vida e triunfar estava no lixo. Desperdiçada. Gregor deixou que suas qualidades subissem à cabeça, se achava melhor por tê-las. Cometeu o mesmo erro que sua família. Mas desta vez não teria volta.

Sua terceira vida chega ao fim e ninguém se importa, mas desta vez ele não era um inseto nojento e sim uma criatura magnífica. Porém, nesta última fase de sua existência ele foi mais digno de nojo do que quando estava em um corpo asqueroso.

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