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Por Matheus Moreira e Felipe Magalhães

Nasci em uma chácara na cidade de Santa Luzia, desde quando saí do ovo lembrava somente de um lugar escuro, cheio de palha, galinhas e pintinhos. Minha família era grande, eu, mamãe, papai e mais sete irmãos. Não via muito papai, pois ele ficava com outros galos e só permitiam que o víssemos uma vez ao ano. Quando digo permitiam, me refiro à criaturas enormes as quais são chamadas de “humanos”. Passava a maior parte do tempo com mamãe e meus irmãos. Mamãe sempre nos esquentava embaixo dela, ah, como era bom! Éramos felizes, só faltava papai para completar nossa felicidade, mas, mesmo que às vezes achássemos triste, nos contentávamos em vê-lo pouco. Entretanto, as coisas foram ficando estranhas com o passar do tempo, à medida que fui crescendo, galinhas iam sumindo e comecei a ficar com medo, mandavam elas para um lugar o qual nós chamávamos de “caminho da felicidade”, não sabia bem o que era, mas não me parecia muito feliz. O primeiro baque foi quando não vimos mais papai, ele veio em uma véspera de natal e depois nunca mais voltou nos anos seguintes. Mas a maior tristeza chegou quando veio o sumiço de mamãe, coitada! Ela já estava velha, cansada, não botava mais ovos direito e certo dia... Sumiu! Galinhas contaram depois que ela foi apanhada por homens. Foi uma fase muito difícil... Pensava que nada mais podia acontecer quando, de repente, me separaram dos meus últimos laços familiares, meus irmãos.

Vieram homens que nunca tinham visto, apanharam várias de nós - como dizem os humanos: nos “compraram” - a única irmã que veio comigo foi Joaquina. Saí de nossa casa, vi a chácara pela primeira vez, pois nunca havia saído de nossa casa (a qual era chamada de galinheiro). Os homens nos colocaram num “caminhão” e viajaram conosco durante algum tempo, por um buraco na lataria do caminhão vi o lugar para o qual estávamos indo, havia caminhos duros e pretos os quais chamavam de “ruas” e construções gigantescas cheias de janelinhas as quais chamavam de “prédios”, estávamos em uma cidade chamada Belo Horizonte. Achei muito estranho.

Por fim nos levaram para um lugar cheio de pessoas chamado "Mercado Central", senti medo pois nunca tinha visto tantas. Separaram-me de minha irmã Joaquina, me colocaram dentro de uma gaiola e a colocaram em uma gaiola de outra loja em frente a que eu estava. Fiquei muito abatida por alguns dias, será que aquele era o “caminho da felicidade” o qual tanto ouvi falar durante a minha vida? Achava que não.

Certo dia veio uma mulher, deu algumas folhas verdes chamadas de “dinheiro” para o homem e me levou com ela.

Chegamos a um lugar consideravelmente agradável. Uma casa com um quintal grande, cheio de árvores: um pé de manga sapatinho, outro de manga coração de boi, de gabiroba, de goiaba branca, goiaba vermelha, abacate e até de fruta-do-conde. Nos fundos um bambuzal, de um lado um barracão e de outro uma caixa de madeira grande parecendo um canteiro. Soltaram-me no quintal, não estava acostumada. Andei, cisquei, catei minhocas na terra, fiz coisas que nunca havia feito antes. Não havia galinheiro ali e isso me aliviou bastante, quantos anos presa naquela escuridão! Vi um menino chegando, tinha cara de bonzinho, ele entrou na casa após alguns minutos saiu. Começou a correr atrás de mim. Achei que estivesse doido e fugi correndo. Como era gordinha, logo me cansei e cedi, deixei que ele me pegasse. Percebi que ele não queria me fazer mal e resolvi ser sua amiga, tive impressão que ele também desejava ser meu amigo. Ele olhou para mim e me disse:

– O seu nome é Fernanda – disse ele jogando m pouquinho de água na minha cabeça – Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

Fique emocionada, nunca haviam me dado um nome, nem mesmo mamãe, era o meu primeiro nome: Fernanda.

Assim que escureceu, me empolerei num galho de uma goiabeira, enfiei a cabeça em baixo das asas e dormi.

No dia seguinte brinquei muito com o menino, escutei sua mãe o chamar de Fernando. Logo começamos a dialogar, ele começou:

– Você sabe o que eles estão querendo fazer com você, Fernanda?

Mexi a cabeça para os lados dizendo que não (Ele me ensinou isso, por mais incrível que pareça, apesar de não conseguir emitir os mesmos sons que ele, conseguia entendê-lo).

– Pois nem queira saber. Cuidado com Alzira, aquela magrela de pernas compridas. É a nossa cozinheira. Ruim que ela só. Não deixa a Alzira nem chegar perto de você.

Não entendia porque ele dizia isso, mas concordava, criei confiança nele.

– Estão querendo matar você para comer. Com molho pardo.

Pisquei de susto, estremeci todo o meu corpo, botei um ovo por puro medo naquela mesma hora. Como assim morrer? Era esse o “caminho da felicidade”? Aqle para o qual mamãe, papai muitos outros foram?

– Mas não vou deixar – Disse ele. Posso ter perdido muitas galinhas queridas, entretanto ganhei um amigo extremamente maravilhoso.

Fernando me escondeu em uma bacia junto ao tanque de lavar roupa. Pediu que eu ficasse ali em silêncio até que o perigo passasse. Desejou-me boa noite e foi dormir no mesmo horário que eu.

Na manhã seguinte acordei morta de fome e sede, Fernando estava demorando muito, dei graças a Deus quando ele chegou me deu um pouco de água. Mas um pouco, depois de uma confusão que escutei com o papagaio, veio ele com milho pra me dar de comer. O papagaio estava morrendo de raiva de Fernando, pois ele havia pegado milho e provocado indiretamente a quase-queda do papagaio da gaiola, que ficou pendurado por uma perna. Fernando foi se esconder lá dentro. Quando Alzira chegou lá fora para ver o alvoroço que o papagaio estava fazendo, o miserável me delatou dizendo que eu estava dentro da bacia. Fernando saiu do esconderijo e veio se sentar na própria bacia. Com muita esperteza, conseguiu enganar Alzira e dizer que um ladrão havia me roubado. A mãe de Fernando ficou desesperada e com muito pesar deu a notícia para o pai de Fernand, o Sr. Domingos, que iria trazer um tal de Dr. Junqueira para almoçar em casa no domingo, ela disse:

– Domingos, roubaram a galinha! Não sei como isso foi acontecer!

O Sr. Domingos não se aborreceu e reagiu com naturalidade dizendo:

– Faz outra coisa. Macarrão, por exemplo. O Dr. Junqueira é bm capaz de gostar de macarrão.

E foi o que foi feito. E o Dr. Junqueira adorou, e ainda disse que detestava galinha ao molho pardo. Mas senti um ar de preocupação no rosto de Fernando, não sabia bem o que era, talvez fosse preocupação comigo pelo que iria vir. Depois do almoço ele veio até mim e me disse:

– Você hoje ainda vai dormir aí, mas amanhã eu te solto, está bem?

Fernando deixou um pouco de água e milho para mim e foi se deitar. No outro dia foi comigo até a mãe e contou toda a história. A mãe riu e o deixou ficar comigo, perante a condição dele não me levar para dentro de casa. Eu andava sempre atrás dele, por muito tempo. Teve um tal de Alberto, não durou muito. Trilhei por muito tempo a trilha para o “caminho da felicidade”, cheguei lá.

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